(Com este tranco dos Monarcas, vamos levando esse cheiro de galpão por este Brasil afora)
Esta vaneira tem um cheiro de galpão Que reacende o meu olfato de guri É pau-de-fogo da memória dos fogões Essência bugra que me trouxe até aqui
Essa vaneira tem um cheiro chimarrão De seiva xucra derramada no braseiro Quando a fumaça do angico se mistura Com um odor de figueirilha no palheiro
Esta vaneira tem um quê de quero mais Que reativa um paladar que já foi meu Relembra a rapa da panela que furou E no cantinho da memória se perdeu
Esta vaneira tem sabor de araçá Jabuticaba, guabiroba, ariticum Por isso lembro o tempo bueno de piá Enlambuzado de pitanga e guabiju
Esta vaneira tem um dom de reviver Fazer as cores que o tempo desbotou Sentir as formas que o tato esqueceu E ser de novo o que eu fui e já não sou
Esta vaneira tem um quê de nostalgia Que traz de volta o romantismo do cantor Revigorando um coração que endureceu E não queria mais ouvir falar de amor
Esta vaneira tem um quê de quero mais Que reativa um paladar que já foi meu Relembra a rapa da panela que furou E no cantinho da memória se perdeu
Esta vaneira tem sabor de araçá Jabuticaba, guabiroba, ariticum Por isso lembro o tempo bueno de piá Enlambuzado de pitanga e guabiju
É na doma que se apega a fúria com a valentia o domador não tem trégua enquanto égua der cria quem monta deve saber que a doma não tem retovo se cair pode morrer, se viver monta de novo.
Ando a cavalo na sorte, sem norte sem adereço Não negocio com a morte, porque a vida não tem preço Eu sei que um dia me vou, mais ainda é muito cedo Tenho potros prá domar, na província de São Pedro
(Gineteando talvez morra na desforra de amansá-los Minha vida é uma gangorra no lombo desses cavalos Minha vida é uma gangorra no lombo desses cavalos)
Lá nos vamos campo afora corcoveando ao Deus dará Quanto mais lhe cravo a espora mais corcovia o bicho dá Beija o céu cutuca o chão que sobe e desce danado É triste a vida do peão no lombo dum aporreado
No lançante morro abaixo a morte me pisca o olho É aí que um índio macho coloca a barba de molho Aposto tudo na sorte nesta disputa renhida O diabo amadrinha o morte mas Deus me protege a vida
Meu poncho emponcha lonjuras batendo água E as águas que eu trago nele eram pra mim Asas de noite em meus ombros sobrando casa Longe "das casa" ombreada a barro e capim
Faz tempo que eu não emalo meu poncho inteiro Nem abro as asas da noite pra um sol de abril Faz muitos dias que eu venho bancando o chimbo Das quatro patas do zaino pechando o frio
[Troca um compasso de orelhas a cada pisada No mesmo tranco da várzea que se encharcou Topa nas abas sombreras, que em outros ventos Guentaram as chuvas de agosto que Deus mandou]
Meu zaino garrou da noite o céu escuro E tudo o que a noite escuta é seu clarim De patas batendo n'água depois da várzea Freio e rosetas de esporas no mesmo trim
Falta distância de pago e sobra cavalo Na mesma ronda de campo que o céu deságua Que tem um rumo de rancho pras quatro patas Bota seu mundo na estrada batendo água
[Porque se a estrada me cobra, pago seu preço E desabrigo o caminho pra o meu sustento Mesmo que o mundo desabe num tempo feio Sei o que as asas do poncho trazem por dentro]
Essa vaneira é antiga E vem da fronteira O autor não se sabe Mas é de primeira
Me toque a vaneira grossa Me apinchou na sala Num trote de guapo A gaitita me embala
E não existe mais grossa que essa vanera Na manhã de ganso Vou na polvadeira Menina dance comigo Que é do meu agrado A vanera grossa Do jeitão largado
Recordo os tempos passados Que morei na roça Vovô já tocava A vaneira grossa Mas hoje os tempos mudaram Ficou a saudade Mas trouxe a vaneira Morar na cidade
Vaneira que o povo canta E aprende a dançar Em qualquer bailanta Chegou pra ficar E no fandango monarca Bailando a contento Vaneira é uma marca Que faz casamento.
Um pouco de saudade lá do meu rincão Um gesto de carinho da gaúcha amada Um toque de cordeona e um bom chimarrão Um quera pacholento pra contar cueradas
Eira eira boi tempo feliz que muito longe vai Eira eira boi no velho rancho do meu velho pai
Antigamente se carneava um boi Se convidava toda a vizinhança Era uma festa de violão e gaita Lá pelas tantas começava a dança E gauchada pela noite afora Faziam farra ate romper a aurora
Eira eira boi tempo feliz que muito longe foi Eira eira boi tempo feliz que muito longe foi
Quem se criou pelo sistema antigo Cá na cidade vive inconformado E quando encontra algum gaúcho amigo Fala de tudo que lembra o passado Canta saudade do gorjeio triste Lembra do tempo que já não existe
Num mundo com tantas doenças. O povo com pouca crença. Eu venho pedir cantando em sentimento e versos, eu venho pedir ao vento dar uma volta no universo. (Meditação).
Pedi ao vento que leve lembrança pra minha terra. Pedi ao vento que leve paz, aonde tem guerra. Pedi ao vento que leve fartura onde tem miséria. Pedi ao vento que leve um beijo nos lábios dela.
O Vento foi, O Vento vem, Será que o vento já me atendeu? Só resta agora você me entender, Que esse vento é o nosso Deus!
Pedi ao vento que salve os jovens perdidos nas drogas. Pedi ao vento que espalhe no céu o perfume das rosas. Pedi ao vento que toda a nação seja gloriosa. Pedi ao vento proteção aos filhos da mãe amorosa.
O Vento foi, O Vento vem, Será que o vento já me atendeu? Só resta agora você me entender, Que esse vento é o nosso Deus!
Pedi ao vento pra acalmar as ondas dos sete mares. Pedi ao vento que leve harmonia a todos os lares. Pedi ao vento que leve embora a impureza dos ares. Pedi ao vento em orações que fiz nos altares.
O Vento foi, O Vento vem, Será que o vento já me atendeu? Só resta agora você me entender, Que esse vento é o nosso Deus!
Pedi ao vento pra nos conduzir na estrada da vida. Pedi ao vento que encontre a criança desaparecida. Pedi ao vento que dê ao doente conforto e guarida. Pedi ao vento que a minha prece seja ouvida.
O Vento foi, O Vento vem, Será que o vento já me atendeu? Só resta agora você me entender, Que esse vento é o nosso Deus!
Abra a cancha gringaiada que sou dono do rodeio Vim aqui pra botar freio nos que são da outra banda Demonstrar que aqui manda o bugio com seu floreio Que na essência puro agrdo de nascença bugio macho Não tem reza nem despacho que me tire essa tenência Sou campeiro, pura essência e ninguém em quebra o cacho
Vai pra puta que pariu, grita lato seu bugio A mensagem que se solta na cordeona, corpo mole Abre o fole, fecha o fole troca o tranco, vai e volta; Abre o fole, fecha o fole troca o tranco, vai e volta.
Gauchada que me sigam na união do mesmo passo Não dance noutro compasso, não passe por maturango Empunhe facão e mango e lute por seu espaço E os de fora que se cuidem que o bugio já tá cansado De ficar só com o trocado quando outros levam tudo E no mais faz ficar mudo pros que estão do outro lado
Um boi se desgarra da tropa que estende e vira a cabeça direito ao capão
Convido o cavalo que pronto me atende e sai arrancando o capim e torrão
Assim corto o rastro do boi que se apura e o laço certeiro me voa da mão
Se aninha nas aspas, a cincha segura e o flete conhece o serviço do peão
(É doce de boca domado a preceito
Do andar das crianças e até do patrão
É manso e tranqüilo mas sempre de jeito
Se acaso lhe toca correr boi gavião)
Então desencilho o crioulo gateado que chega faceiro por ver o galpão
Enfim resfolega de lombo suado a lida comprida e as rédeas no chão
É o pingo crioulo que segue na estrada bandeira do pago, fiel tradição
Heráldico flete que pelas manadas resiste tal fosse um gaudério brasão
São esses cavalos que a ida nos leva
Heróis esquecidos nessa evolução
Parceiros de campo que o tempo maleva
Reponta em silêncio além do rincão